Together We Protect

Há histórias de reabilitação que nos recordam porque fazemos o que fazemos. Esta é uma delas!

Em junho de 2021, pescadores encontraram uma tartaruga-comum presa em equipamento de pesca no rio Guadiana, a cerca de 19 km do mar. Incapaz de subir à superfície para respirar, o animal foi resgatado e trazido para o Porto d’Abrigo, o centro de reabilitação do Zoomarine Algarve. O diagnóstico? Anemia e um anzol alojado no estômago.

Salina: foi assim batizada durante a sua reabilitação, e doze meses depois, com 51,8 kg e em plena forma, devolvemo-la ao oceano. Mas não sem antes lhe colocarmos um transmissor satélite e recolhermos uma amostra de sangue para análise genética. Porque queríamos saber: será que sobreviveria? Para onde iria? E de onde teria vindo?

Os números falam por si: 9.203 km em 13 meses de monitorização. Seis dias após a libertação, já tinha atravessado o Estreito de Gibraltar e entrado no Mediterrâneo. Depois, círculos largos no Mar de Alborão (provavelmente a alimentar-se), uma travessia junto à costa de Marrocos e Argélia, passagem pelas Baleares, contorno da Sardenha, e finalmente… fixação no Mar Tirreno, entre a Sicília e a Calábria.

O padrão de movimento? Clássico para a espécie: áreas de alimentação no verão e outono em águas quentes (até 29 °C), migração para sul no inverno quando as temperaturas baixaram, mantendo-se em zonas com cerca de 15 °C, no limite do conforto térmico, mas ainda dentro dos parâmetros toleráveis.

A análise do haplótipo mitocondrial (enfim, um palavrão para dizer genética) revelou uma pista interessante, mas não conclusiva: ou nasceu no Atlântico e migrou jovem para o Mediterrâneo (comportamento conhecido da espécie), ou é uma “mediterrânica” de origem, talvez nascida nas praias da Calábria – precisamente a região onde acabou por se fixar. A ciência não nos dá esta resposta definitiva, mas oferece-nos algo igualmente valioso: contexto populacional e confirmação de que estas águas algarvias são rotas críticas para tartarugas de múltiplas origens.

E por que tudo isto importa? Esta tartaruga sobreviveu pelo menos 392 dias após a reabilitação, retomando padrões naturais de migração e alimentação. Cada dado recolhido ajuda a comunidade internacional a mapear áreas de risco (pesca, temperatura), zonas críticas de alimentação, e a ligar populações geneticamente.

Do nosso conhecimento, este é apenas o segundo estudo de telemetria satélite com tartarugas reabilitadas no Algarve – e o primeiro a combinar tracking com genética. Num momento em que seis das sete espécies de tartarugas marinhas estão ameaçadas, cada uma destas histórias importa.

Porque às vezes, salvar uma tartaruga não é apenas sobre essa tartaruga. É sobre compreender todo um sistema, proteger rotas migratórias, informar políticas de conservação pesqueira, e – sim, podemos admiti-lo – lembrar-nos de que o trabalho vale a pena.

Artigo em inglês

O percurso da Salina:

A Salina percorreu 9.203 km em 13 meses de monitorizaçãoApenas seis dias após a devolução ao mar já tinha cruzado o Estreito de Gibraltar rumo ao Mediterrâneo, onde circulou no Mar de Alborão, seguiu pela costa de Marrocos e Argélia, passou pelas Baleares e contornou a Sardenha, até se fixar no Mar Tirreno, entre a Sicília e a Calábria.

Uma viagem extraordinária que confirma o sucesso da sua recuperação e reforça a importância da conservação marinha.

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